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Notícias


Final feliz para abutres que perderam cria no incêndio do ano passado


Depois de perderem uma cria no incêndio no Parque Natural do Douro Internacional no verão passado, o único casal de abutre-preto no norte de Portugal viu agora o seu rebento voar do ninho. Um momento de celebração para os conservacionistas, que chegaram a temer o pior.

“Tivemos umas noites mal dormidas, mas ver a cria voar compensa toda a ansiedade, e é um prémio bem merecido para todos os envolvidos, que foram incansáveis” diz Joaquim Teodósio, da SPEA, coordenador do projeto Life Rupis, que visa proteger águias e abutres ameaçados no Douro Internacional.

Será que voltam?

Depois de no ano passado um grande fogo ter atingido o ninho e causado a morte da cria, este ano a preocupação começou cedo: o casal voltaria ao Douro? Ou abandonaria a região e iria juntar-se a uma das colónias em Espanha?

Para aumentar a probabilidade de estes abutres voltarem a nidificar na região, a equipa do Life Rupis tentou conquistá-los pelo estômago. A equipa tem na região vários campos de alimentação suplementar para abutres. Estes campos são destinados sobretudo a aves migratórias como o britango, pelo que normalmente não seriam abastecidos no inverno. Mas tendo em conta a situação do casal de abutres-pretos, a equipa continuou a pôr alimento nos campos de alimentação mais próximos, durante todo o inverno– e instalaram dois campos de alimentação temporários, na proximidade da zona onde os abutres-pretos tinham nidificado em anos anteriores.

Ninho em dúvida

Em novembro, para alegria geral, o casal voltou à área de nidificação nas arribas do Douro. A tão ansiada chegada despoletou a segunda preocupação: conseguiriam encontrar sítio para fazer o ninho? O ninho que ardeu no ano passado já era um ninho “suplente” a que os abutres-pretos tinham recorrido quando encontraram o seu ninho habitual ocupado por grifos. Numa região ainda debilitada pelos efeitos do fogo, não sobravam muitas opções, pois a maior parte das árvores mais robustas tinham ardido. A equipa do projecto Life Rupis chegou a pôr a hipótese de construir plataformas em madeira onde os abutres pudessem construir os ninhos, mas entretanto o casal escolheu por si, instalando-se num novo local. Só que a escolha ficou longe de tranquilizar a equipa: os abutres decidiram fazer o ninho num zimbro parcialmente ardido, levantando nova dúvida: a árvore aguentaria o peso do ninho, com os pais e uma eventual cria em cima?

Indiferentes às preocupações dos humanos que os vigiavam atentamente, o casal pôs um ovo em fevereiro. Um mês depois, uma mensagem de alegria circulava pelo grupo de WhatsApp do projeto: nasceu uma cria! Mas, à medida que o pequeno abutre ia crescendo, e com o mau tempo que assolou a região em fevereiro e março, as dúvidas quanto à resistência da árvore iam aumentando.

O ninho estava muito instável, por isso depois de consultar especialistas e acompanhar a situação durante várias semanas, a equipa do ICNF decidiu intervir. A árvore estava bastante fragilizada e por isso teve de ser escorada e presa com uma cinta para a impedir de cair.

A decisão de intervir foi muito ponderada, pois os abutres-pretos são sensíveis a perturbações na área do ninho, pelo que havia o receio de que a ajuda humana levasse o casal a abandonar a cria, que, com apenas 6 semanas de idade, ainda estava completamente dependente dos pais. Mas perante o perigo de queda da árvore, a equipa avançou.

Uma noite de nervos

Enquanto os técnicos reforçavam a árvore, o casal de abutres afastou-se do ninho. Acabado o trabalho, seguiram-se longas horas de ansiedade para a equipa, à espera que os pais voltassem para junto da cria. Para complicar, o tempo não ajudou: as temperaturas, já frias para a época, baixaram naquela noite, e começou a chover, com previsões de que iria piorar no dia seguinte um dos motivos que acelerou a intervenção. A equipa desdobrava-se em esforços, entre os vigilantes do ICNF a acompanhar a situação no terreno, os colegas da Palombar e ATNatureza a oferecerem apoio logístico, e membros da Vulture Conservation Foundation a consultar especialistas em abutres-pretos no estrangeiro… o WhatsApp da equipa não parava:

“Cuidado, a cria só tem 6 semanas não tem penas de cobertura. Se chover, vai sofrer de hipotermia. Se os pais não voltarem amanhã de manhã e estiver a chover a cria deve ser retirada o mais tardar da parte da tarde – conselho de um perito”

“As previsões são trovoada e temperatura mais baixa”

“Seria de intervir durante a noite?”

“Por razões de segurança, não aconselho”

“Espero que não seja precisa a retirada. Mas no caso ofereço-me para acompanhar”


Até que finalmente, às três da tarde do dia seguinte, veio a tão-esperada boa notícia: “fêmea no ninho a dar de comer à cria, já estiveram os 2 adultos agora está a fêmea e a cria come com voracidade”
Na chuva de emojis de celebração, era quase audível o suspiro de alívio coletivo. Com a família novamente reunida, a equipa do Life Rupis continuou a vigiar a situação, e a abastecer os campos de alimentação para que nada faltasse. Volvidos uns meses, o resultado está à vista: uma cria forte e saudável, pronta a fazer-se à vida.

Esperança para a espécie
“Ver esta cria crescer e fazer os primeiros voos é importante pela história deste casal, e pelo que passaram, mas também pelo que representa para a espécie, porque nos dá esperança que possamos vir a ter um novo núcleo de abutres-pretos no nordeste de Portugal,” diz Teodósio.

Quando este casal se fixou no Douro em 2012, surpreendeu os biólogos ao instalar-se a cerca de 100km das colónias mais próximas. As maiores aves que percorrem os céus portugueses, os abutres-pretos vivem normalmente em colónias com dezenas de indivíduos. Por vezes, casais recém-formados afastam-se de uma colónia, começando um novo núcleo – foi o que sucedeu em Barrancos, por exemplo. Mas normalmente estes novos núcleos formam-se a 10 ou 20km da colónia de origem – não a 100km!

A esperança da equipa do Life Rupis é que esta cria, quando atingir a maturidade, venha também a fixar-se na região, e que aos poucos se crie uma colónia de abutres-pretos no nordeste de Portugal. Para esta espécie ameaçada, uma nova população em Portugal seria uma excelente notícia, não só pelo aumento do número de indivíduos mas também pelas informações que se vão obtendo e são muito úteis para a sua conservação.

“O vingar desta cria é o culminar de um processo que foi cheio de altos e baixos. Com alguma sorte e dedicação, esperamos num futuro próximo ter mais casais de abutre-preto para acompanhar no Douro – mas de preferência com menos drama!” conclui Teodósio.

Foto: Ver a cria treinar os primeiros voos (à distância, para não a perturbar) compensa dias e noites de ansiedade, dizem os conservacionistas. © ICNF
1 de setembro de 2018


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